Os “Pilates” não são todos iguais
- Pedro Baracho

- 18 de nov.
- 7 min de leitura
Atualizado: 19 de nov.
Mas afinal o que é o Pilates? Numa altura em que esta palavra voltou a estar na moda, porque em todas as esquinas se vê um novo espaço a abrir com aulas cheias de “gente gira” e tonificada, com uns aparelhos fantásticos que dão umas fotos espetaculares para o Instagram e em que o professor puxa imenso principalmente pelos abdominais, o Pilates tem vindo a cair em lugares comuns e demasiadas generalizações. Com este artigo pretendemos esclarecer a nossa visão para que quem tiver de fazer uma escolha a possa fazer da forma mais informada e consciente possível. E nós, que somos anti-dicas, até vamos dar umas dicas!
A partilha do post...
A nossa visão
Na verdade a visão que pretendemos partilhar não é só nossa. É a perspetiva de quem vive o Pilates como um estilo e uma filosofia de vida. Um método, a Contrologia, que foi criado e que nas palavras do seu criador o definiu da seguinte forma:
“A Contrologia é a completa coordenação de corpo, mente e espírito. Através da Contrologia, primeira e propositadamente, adquirimos o controlo do nosso próprio corpo e então, através da repetição correta dos seus exercícios, gradual e progressivamente adquire o ritmo natural e coordenação associadas a todas as atividades subconscientes.” Joseph Pilates, Return To Life Through Contrology (1945)
Na diversidade de oferta que hoje há de Pilates, é importante saber escolher. Os Pilates não são todos iguais.
Esta é a visão que é transmitida ao longo da formação da escola Romana’s Pilates. Esta é a escola de formação dos professores do Aloé e é esta a perspetiva que pretendemos partilhar convosco, um pouco a cada aula. Naturalmente cada professor é um indivíduo diferente, e nunca conhecemos Joe Pilates. No entanto a visão do Romana’s Pilates é o nosso ponto de partida, o nosso Power House, para depois podermos partilhar o método com cada aluno e ao mesmo tempo sermos o mais honestos connosco.
O Pilates
Para nós, Pilates é escrito sempre com letra maiúscula! Não poderia ser de outra forma, uma vez que se refere ao apelido do próprio criador do método e não a uma modalidade. E na verdade Pilates, o homem, nunca se referiu ao seu método como Pilates, mas sim como Contrologia, tal como o definiu no seu livro Return To Life Through Contrology (1945). Da mesma forma como nós dizemos que vamos ali à mercearia do Sr. João ou à massagem com a Margarida e passamos a dizer aos que nos circundam “vou ao Sr. João” ou “tens de ir à Margarida”, o mesmo se passou com os alunos de Joseph Pilates, que “iam ao Pilates”.
DICA: Vê Pilates escrito com “p” minúsculo? Questione-se…
Romana Kryzanovska, a discípula de Joseph e Clara Pilates que ficou responsável pelo estúdio original após a morte de Joe e mais tarde de Clara, e que deu continuidade ao legado que recebeu, não só mas também através da criação da escola de formação Romana’s Pilates, definia a Contrologia da seguintes forma:
“Em 1 palavra, MOVIMENTO. Pois sem movimento não há nada!
Em 2 palavras, MOVIMENTO com CONTROLO.
Em 3 palavras, FORÇA, FLEXIBILIDADE e CONTROLO”.
Joseph e Clara Pilates Romana Kryzanovska
Mais do que exercícios, no Aloé queremos que os nossos alunos aprendam e compreendam estes conceitos, para que os possam depois levar para a sua vida. Mais do que o que fazemos no estúdio e nos aparelhos, todo a nossa vida pode ser uma vivência do método.
DICA: Os professores ficam-se por exercícios ou dão-me
ferramentas para aplicar no meu dia-a-dia?
A formação dos professores
No Aloé a nossa formação de Pilates é feita através da escola Romana’s Pilates. Dentro do mundo do Pilates podemos dizer que é uma escola de Pilates clássico, mas como costumamos dizer no Romana’s Pilates “Não somos Pilates. Somos Romana’s Pilates”.
Como referimos no parágrafo anterior Romana Kryzanovska, foi a discípula de Joe e Clara que manteve e transmitiu o legado que aprendeu a milhares de alunos, hoje em dia professores do método. Enquanto bailarina, chegou ao estúdio de Joseph Pilates por recomendação do coreógrafo George Balanchine, para reabilitar uma lesão no tornozelo. O que no início a chocou, rapidamente se tornou uma grande paixão que durou o resto da sua vida. Após a morte de Joe foi quem ficou responsável pela gestão do estúdio em conjunto com Clara. Os tempos passaram e após algumas situações controversas, entre as quais durante os anos 90 do século passado, Pilates ser considerado por um tribunal como um nome “genérico” ou seja que não havia propriedade deste nome por parte de ninguém (tal como Yoga), Romana em conjunto com a sua filha Sari Mejia-Santo e a sua neta Daria Pace decidem em Fevereiro de 2003 fundar a escola Romana’s Pilates.
É nesta escola que baseamos a nossa formação e a mantemos ativa e viva formalmente através de educações contínuas anuais. Não obstante, mantemos uma relação muito próxima com o nosso professor Javier Perez-Pont, ele próprio uma referência mundial no Pilates, quer pelo seu conhecimento técnico, mas também por ser o 1º biógrafo de Joseph Pilates, tendo publicado em 2013 a primeira e mais completa biografia de Joseph Pilates.
São vários os formadores da escola Romana’s Pilates, começando pela diretora Seria Mejia-Santo e a sua filha Daria Pace, entre muitos outros que se espalham por todo o mundo, sendo a escola de formação com maior impacto a nível mundial. Desta forma sabemos que o conhecimento e a partilha não se limitam à perspetiva e vivência de uma só pessoa, mas sim, através de um Power House forte e sólido, existe a flexibilidade e diversidade de perspetiva de formadores com experiência de décadas e de nível mundial.
DICA: Qual a formação do professor?
Com quem aprendeu e continua a aprender?
Conceitos e exercícios
Segundo Romana, Pilates dizia que
“No estúdio as pessoas são alunos, porque vêm aprender sobre o corpo”
Mas vêm aprender o quê sobre o corpo? Exercícios? Refletindo sobre esta premissa, ela não pode estar correta, porque realizar exercícios é “treinar”, e aprender exercícios é apenas sabê-los e não é igual a “aprender sobre o corpo”.
Tal como Pilates refere na sua definição de Contrologia “… através da repetição correta dos seus exercícios, gradual e progressivamente adquire o ritmo natural e coordenação associadas a todas as atividades subconscientes”. Assim vemos como os exercícios são um meio para atingir um fim e não o fim em si.
E qual será o fim? Precisamente os conceitos que enquanto professores vamos ensinando aos alunos, ao longo das aulas, ao longo do tempo e no tempo de cada um. Não há uma meta de tempo, nem um objetivo a cumprir num tempo definido. Cada corpo é um corpo diferente e cada corpo tem o seu tempo. Mas a verdade é que conceitos como “Caixa”, “Centro”, “PowerHouse”, “controlo através das molas”, “vértebra por vértebra”, entre tantos outros são apresentados e partilhados desde a primeira aula. No entanto a sua compreensão e integração vão sendo aprofundadas ao longo de cada aula, consoante há necessidade, espaço e tempo para que cada um seja verdadeiramente vivido e sentido. Só deste forma o método chega verdadeiramente a cada corpo e a cada aluno e assim se pode avançar e progredir para o ideal do “ritmo natural e coordenação associadas a todas as atividades subconscientes”, que Joseph referiu.
DICA: Durante a aula aprendo algo sobre o meu corpo e sobre os conceitos e princípios que orientam a Contrologia ou limito-me a realizar exercícios?
Evoluir: mais vale feito que perfeito
A perfeição não existe! Se guiamos a nossa prática pela procura da perfeição, não evoluímos. Ficamos estagnados na procura do que nunca vai chegar. E na verdade, se resumirmos os nossos treinos à procura da perfeição, continuamos a centrá-los nos exercícios e não nos conceitos.
DICA: Sinto e vejo evolução e progresso? Sinto-me desafiado a evoluir e progredir com o meu corpo ou apenas condicionado e rigidificado na procura da perfeição?
Ao organizar o método, Pilates, tinha em vista a evolução do ser humano. O método foi criado para o ser humano, ser humano. Nesta evolução há altos e baixos, mas se virmos de uma perspetiva mais ampla, há que evoluir e trazer de forma progressiva desafios para que o corpo (a mente e o espírito) se vá esforçando e adaptando a ser melhor, ultrapassar as suas limitações para algo melhor.
O movimento deve ser o fio condutor da aula. Através da realização dos exercícios, cada aluno se compromete com a sua própria evolução. O professor colabora e acompanha o processo com o seu conhecimento mas o trabalho é desenvolvido por cada aluno. Se não há movimento, porque se procura a perfeição ou o controlo milimétrico de um exercício, não há Contrologia. Se se passa a aula toda a corrigir, modificar, adaptar, respirar, ter consciência, sentir, não há Contrologia.
DICA: Eu movimento-me e pratico os exercícios e através dos exercícios vou corrigindo e melhorando o meu controlo? Ou passo a aula parado a sentir coisas, a respirar, a trazer a consciência para coisas estranhas e não me movimento?
Neste processo muitas vezes temos de alterar ou eliminar exercícios, tendo em vista não a procura da perfeição, mas sim o trazer e alimentar os conceitos de base. É a partir desta conquista e do seu treino através dos exercícios (modificados ou não) que vamos evoluindo para os exercícios como foram originalmente criados e ao longo do método para níveis de dificuldade progressiva e conscientemente mais complexos.
A Contrologia não compactua com “não consigo”, “é impossível”, “não posso”, mas alimenta-se de “vou tentar”, “vou experimentar”, “quero”… Para tentar, experimentar e querer temos de ter em consideração as características e necessidades específicas de cada corpo, o que pode incluir alterar exercícios por questões individuais como dores e desconforto, características ortopédicas, entre outras, mas não vamos vamos por um carimbo de incapacidade logo à partida.
“Para fazer Pilates, basta conseguir mexer um dedo” Romana Kryzanovska
DICA: Puseram-me uma “tabuleta” de incapacidade e insuficiência por alguma dor, desconforto ou debilidade?
Conclusão
É através destas ideias e princípios que navegamos através das aulas de Pilates no Aloé. Não melhoramos a postura, nem fortalecemos o abdómen. Estes são apenas consequências naturais para quem toma a decisão de conhecer o corpo e através do fortalecimento da flexibilidade e do controlo, desenvolver a coordenação de “corpo, mente e espírito” que Pilates pretendia para o seu método e para quem usufruísse dele.
Sabemos também que nunca conseguiremos chegar a toda a gente, mas se pudermos contribuir para informar sobre o que pode verdadeiramente ser o Pilates, ficamos felizes. Assim ficam as dicas para que de forma mais consciente e informada, possa questionar e refletir sobre o que está a fazer neste momento. Atenção! Somos da equipa “movimento e exercício” e acreditamos que fazer exercício, qualquer que seja é melhor que nada. No entanto, também acreditamos que devemos honrar e dar os nomes certos às coisas. O mundo já é demasiado confuso para ainda nos confundirem mais.




























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